Ilha de Paquetá

Rio de Janeiro -  Segunda Residência Artística e Laboratório Aberto de Artes

           Localizada no meio da Baía de Guanabara, a Ilha Paquetá, tornou-se nossa casa entre 27 a 30 de novembro de 2019.  Essa bucólica e histórica ilha, mantém viva uma maneira específica de viver, chamada pelas pessoas que lá moram, um ser Ilhéu. 

 

          O que é ser Ilhéu hoje em dia? Como é viver exatamente no meio de uma paisagem de destruição e poluição? Por que e como os Ilhéus mantêm vivo o sentimento de pertencimento? Nosso encontro com os Ilhéus Alessandra Gomes (estudante e fotógrafa), Danyelle Mayor (bióloga), Emanuel Barbosa (ativista e músico), Januário e Francisco Campos (estudantes), nos levou a criar novas formas de nos conectarmos, sentirmos e percebermos os problemas, novas formas de engajamento com este território. Juntos, começamos a ouvir, sentir e nos sintonizar com este território sensível chamado Paquetá.

EN

Located in the middle of Guanabara Bay, Paquetá Island became our home from 27th to 30th of November, 2019.  This bucolic and historical island keeps alive one specific way to live, called for the people, who live there, Ilhéu. What is to be Ilhéu nowadays? How is it to live in the middle of destruction and pollution? Why and how the Ilhéus keep alive the sense of belonging?

 

Our encounter with the Ilhéus Alessandra Gomes (student and photographer), Danyelle Mayor (biologist), Emanuel Barbosa (Activist and Musician), Januário and Francisco Campos (students), led us to create new ways to get a connection, feeling, engagement, and perception of the problems. Together, we started to listen, feel, and attunement with this sensitive territory called Paquetá.

Nathalie Fari

 


             Como se aproximar de um lugar desconhecido ou melhor, como incorporar um lugar em crise? Um lugar chamado Paquetá - “pac” (paca) e “etá” (muita) - uma pequena ilha no meio da Baía de Guanabara que desde os tempos coloniais vem recebendo diferentes pseudónimos (por exemplo, ilha dos amores). Hoje em dia, essa ilha vive entre um passado distante e um futuro próximo, entre as paisagens míticas e os problemas ambientais causados pelo homem, entre tentar sobreviver e construir novas narrativas. 

             Dentro desse cenário, surgiu a minha proposta em torno de um trabalho performativo e somático. Com um foco nas questões do lugar, desde o micro (a nossa sala no centro das artes) até o macro (o que vem a ser o Antropoceno), o meu objetivo foi criar imersões corpo-ambientais a partir de diferentes exercícios. Baseados no conceito site-specific, na improvisação, assim como em técnicas corporais como o yoga e os 5 ritmos (ou “conscious dance”), esses exercícios visaram aprofundar as relações criadas tanto com o grupo, quanto com o lugar. Uma das questões correntes foi tentar entender a dinâmica de um lugar isolado do mundo e ao mesmo tempo, imbricado pelas atuais mudanças climáticas.

             Sob esta perspectiva, o meu corpo em contato com os outros corpos, recebeu diferentes estímulos e vivenciou diversas formas de estar nos lugares, seja em Paquetá ou simplesmente, no espaço interior do meu corpo, nas células de meu organismo... O que ainda soa em meu corpo, é o movimento da respiração que geramos durante os exercícios, do inspirar e expirar do corpo individual e coletivo. Por alguns momentos, conseguimos até ser um corpo só enraizado numa ilha que assim como todo organismo vivo, necessita de uma respiração profunda, de uma reconexão do que significa cuidar de si, do outro e dos lugares que nos circundam.

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EN

How to approach an unknown place or even better, how to embody a place in crisis? A place called Paquetá - “pac” (cuniculu paca) e “etá” (a lot) – a small island in the middle of the Guanabara Bay which since colonial times, has been receiving different pseudonyms (e.g. island of love). Nowadays, this island lives between a distant past and close future, between mythical landscapes and the ecological problems caused by man, between trying to survive and creating new narratives.

Within this scenario, has emerged my proposal of a performative and somatic work. By looking at the issues of the place, from the micro (our studio in the cultural center) to the macro (what means Anthropocene), my main goal was to facilitate bodily-environmental immersions through different exercises. Based on the concept of site-specific, on movement improvisation as well as on embodied techniques such as yoga and the 5 Rhythms (e.g. conscious dance), these exercises focused on the relations created not only within the group, but also with the place. A frequent issue for example, was to understand the dynamics of an isolated place which at the same time, is deeply imbricated by the current climate change.

From this perspective, my body in connection with the other bodies, received not only different impulses, but also different ways of being at the place, be it in Paquetá or simply, inside the space of my body or the cells of my organism… Something what is still resonating in my body, is the movement of the breath that we had created during the exercises, the inhaling and exhaling of both the individual and collective body. For some moments, we even became one single body rooted on an island which as any other living organism, is in need of a profound breathing, a reconnection of what means to take care of yourself, the other and the places that surround us.

Guto Nóbrega

              Lixos são containers vazios de energia consumida. São resíduos descartados, energias estagnadas, que não se transformam, não recuperam seu potencial inicial. Poderíamos pensar o lixo em termos de informação e entropia. Paradoxalmente o lixo é redundância mas também é informativo na medida do improvável, como o plástico dentro dos organismos vivos das águas, no bico das aves. É uma informação que incomoda e que nos ameaça com sua presença ausente. Não consumimos a natureza, mas sim seus subprodutos industrializados. Há que se voltar para a terra, para água, para o ar. O fogo nos cura, extrai nosso males. Fumaças sobem ao vento. A água nos lava e o sal nos limpa. Recuperamos nossas energias. A terra nos aterra para nos conectar com as estrelas, com o cosmos, na medida que criamos raízes, como as plantas. Comer as plantas. Resgatar uma harmonia sem perdas, apenas mantendo o fluxo sutil da vida que passa por nós. Há que se desnudar para retornar à natureza, sem danos, ou perdas, sem lixo. Onde não estaremos mais separados de nada.

EN
Trashes are empty containers of consumed energy. They are discarded waste, stagnant energies that do not transform, do not recover their initial potential. We could think of trash in terms of information and entropy. Paradoxically, waste is redundant, but it is also informative as far as unlikely, such as plastic inside living water organisms, in birds' beaks. It is a piece of disturbing information that threatens us with its absent presence. We do not consume nature, but its industrialised byproducts. One has to turn to earth, to water, to air. Fire heals us, extracts our evils. Smokes rise in the wind. Water washes us and salt cleanses us. Thus we recover our energies. Earth lands us to connect with the stars, the cosmos as we take root, like plants. Eating plants. Redeem a lossless harmony, just keeping the subtle flow of life through us. You have to bare yourself to return to nature without
damage or loss, without trash. Where we won't be apart from anything anymore.

Cesar Baio

         Na residência realizada em Paquetá, meu interesse foi discutir a relação entre a paisagem natural da ilha, objetos lançados como lixo na Baía de Guanabara e os navios, plataformas e infraestruturas ali instaladas. Como princípio de minha intervenção naquele local específico, assumi a intenção de fazer isso a partir da criação de uma relação horizontalizada e de aprendizado mutuo com habitantes locais. Deste projeto, surgiu a proposição Obliterações. No Dicionário, obliterar significa "fazer desaparecer ou desaparecer uma coisa, pouco a pouco, até que dela não fique nenhum vestígio”.

 

         A ação proposta partiu do exame das imagens que os habitantes locais haviam produzido da ilha em que vivem. Estas imagens foram os catalisadoras de debates sobre a política da paisagem no contexto de Paquetá. O que estas imagens contam sobre o lugar e as pessoas? O que se mostra e o que se esconde nestas paisagens? De que maneira as praias e o mar se entrelaçam com objetos descartados presentes em suas praias, os navios, as plataformas e as infraestruturas instaladas nestas paisagens do Antropoceno?

 

         A partir desta provocação, Alessandra Gomes, Daniele Mayor, Emanuel Barbosa, Francisco Campos, Januário Campos, moradores da ilha, se lançaram junto comigo em caminhadas pelas praias. A comum visada do horizonte em busca da paisagem de cartão postal deu lugar a olhos voltados à areia, ao lixo flutuante atracado na areia e às formas possíveis de composição entre aqueles objetos e a paisagem vista a partir da ilha. Se para mim aquelas paisagens remetiam a um complexo de conexões entre minhas leituras sobre o Antropoceno e às sensações disparadas por desenhos, pinturas e fotografias que encontrei em minhas pesquisas sobre a ilha, para meus companheiros de caminhada, elas eram a lembrança de passagens longínquas e recentes de suas próprias vidas. O gesto poético de obliterar, de “fazer desaparecer” um elemento da paisagem, acabou por revelar dimensões da realidade que costumam passar desapercebidas seja por estarem submersas nas águas profundas da da baía seja por estarem acessíveis apenas aqueles que vivem na ilha cotidianamente. Entre o que está visível e invisível, o trabalho cria vestígios do que não é visto e acaba por embaralhar as funções de registro, memória e invenção da imagem.

EN

During this artistic residence in Paquetá, my interest was to discuss the relationship between the island's natural landscape, objects thrown as garbage in Guanabara Bay and the ships, platforms and infrastructure installed there. As a principle of my intervention in that specific location, I assumed the intention to do this from a horizontal relationship and mutual learning with local inhabitants. From this project, the Obliterations proposition arose. In the Dictionary, to obliterate means to "make something disappear or disappear, little by little, until there is no trace of it”.

The proposed action came from examining the images that the local inhabitants had produced of the island where they live. These images were the catalysts for debates on landscape policy in the context of Paquetá. What do these images tell about the place and the people who lives there? What is shown and what is hidden in these landscapes? How do the beaches and the sea intertwine with discarded objects present on its beaches, the ships, the platforms and the oil infrastructures installed in these "landscapes of the Anthropocene”?

From this provocation, Alessandra Gomes, Daniele Mayor, Emanuel Barbosa, Francisco Campos, Januário Campos, residents of the island, launched themselves along with me on walks along the beaches. The common sight of the horizon in search of the postcard landscape gave way to eyes focused on the sand, the floating garbage moored in the sand and the possible forms of composition between those objects and the landscape seen from the land. If those landscapes reminded me of a complex of connections between my readings on the Anthropocene and the sensations triggered by drawings, paintings and photographs that I found in my research on the island, for my companions, they were the memory of distant passages and of their own lives. The poetic gesture of obliterating, of “making disappear” an element of the landscape, ended up revealing dimensions of reality that usually go unnoticed either because they are submerged in the deep waters of the bay or because they are accessible only to those who live on the island every day. Between what is visible and invisible, the work creates traces of what is not seen and ends up shuffling the functions of registration, memory and invention of the image.

Sofia Mussolin

               Como nós, humanos, nos inserimos na Baía de Guanabara? O enquadramento de uma fotografia se dá no olhar junto do espaço, e a proposta artística "Reflexão da Baía" utiliza desse conceito, aliando a caminhada, a concentração e a composição dos corpos com o espaço para criar uma instalação junto ao local que faz margem com a Baía em Paquetá. Convoquei as pessoas para uma caminhada silenciosa e solitária, observando esse momento da performance através de um papel de superfície refletora/reflexiva, a fim de redimensionar o lugar que ocupa o corpo, repensar os limites entre interno/externo, e perceber que o que olhamos, também nos olha. Nos dispomos assim a estender a noção de forma, criando novas formatações de coexistências, através do estado, majoritariamente creditado como solitário, mas que em verdade é coletivo - já que o próprio corpo do participante ou o próprio ambiente são compostos de milhares de microorganismos e de milhares de seres vivos - cosmos dotados de multiespécies, e, por isso, coletivos. Dessa maneira, evidencia-se a experiência corpórea de rede, da dinâmica da forma, e da necessidade à fabulações de novas maneiras de vida, em que as diferenças e as amorfidades são essenciais para os movimentos relacionais. A movimentação do objeto performático, que acaba por movimentar também os corpos e os ambientes, capacita a identificação de nós mesmos com o todo. Quando colocamos o externo como parte interna, possibilitamos a ativação de nossos corpos em uma mudança de comportamento, para ajustar soluções que compreendam diversidades mais amplas do que entendíamos como necessárias anteriormente. Refletirmos a Baía de Guanabara, ela refletir em nós, e tudo se tornar um.

 

EN

How do we, humans, fit into Guanabara Bay? The framing of a photograph takes place in the look next to the space, and the artistic proposal "Reflexão da Baía" uses this concept combining the walk, the concentration and the composition of the bodies with the space to create an installation next to the place that borders with the Bay in Paquetá. I called people for a silent and lonely walk, observing this moment of performance through a reflective surface paper, in order to resize the place that occupies the body, rethink the limits between internal/external, and realize that what we look at, also looks at us. We are thus willing to extend the notion of form, creating new formats of coexistence, across the state, mostly credited as solitary, but which in fact is collective - since the participant's own body or the environment itself are composed of thousands of microorganisms and of thousands of living beings - cosmos endowed with multispecies, and therefore, collective. In this way, the corporeal experience of network, the dynamics of form, and the need for the fabulation of new ways of life are evidenced, in which differences and amorphities are essential for relational movements. The movement of the performance object, which ends up also moving bodies and environments, enables the identification of ourselves with the whole. When we put the external as an internal part, we enable the activation of our bodies in a change of behavior, to adjust solutions that comprehend broader diversities than we understood as necessary previously. We reflect the Guanabara Bay, it reflects on us, and everything becomes one.

Patricia Freire

             Essa ação é inspirada na celebração da primavera indiana chamada "Holi Festival", uma manifestação popular que acontece todo ano praticamente em toda a Índia como tradição do povo em sair às ruas para dançar lançando pó colorido e água uns nos outros.
Meu trabalho tem a intenção de celebrar a paisagem, exaltar o bem que a natureza nos traz. As cores do pó que cobre a árvore nos mostra sua presença, sua magnitude. As marcas das suas sombras no solo traz a noção do tempo que nos escapa aos olhos, assim como o pó irá se desfazer não deixando marca alguma. Fica a memória de uma experiência na paisagem. ( Pintando na Paisagem, 29/11/2019)

EN

This action is inspired by the celebration of the Indian spring called Holi Festival, a popular event that takes place every year practically all over India as a tradition of the people taking to the streets to dance throwing colored powder and water at each other. My work is intended to celebrate the landscape, to exalt the good that nature brings us. The colors of the dust that covers the tree show us its presence, its magnitude. The marks of its shadows on the ground bring the notion of time that escapes our eyes, just as the dust will come undone without leaving any marks. The memory of an experience in the landscape remains. (Landscape Painting - 29/11/2019)

Paola Barreto - Dr. Fantasma

           Cheguei a Paquetá sem saber exatamente o que iria encontrar. Não ia à ilha desde que meus filhos eram pequenos, portanto lá se vão bons 15 anos. Tentei não idealizar nem projetar nada, partindo da ideia de que a própria ilha me diria qual caminho tomar.

Logo na chegada, decidi trabalhar em duas linhas de investigação. 

             De um lado colecionando vestígios, pistas, rastros e sinais a partir de objetos naturais ou fabricados que aparecessem em meu caminho, e que pudessem se tornar meus aliados em uma possível criação sobre esse território - físico e simbólico. 

             Por outro lado, na biblioteca da Casa das Artes encontrei algumas publicações sobre a Ilha, suas lendas, sua história oficial e as memórias de viajantes de épocas diversas. Particularmente me interessou o tema das guerras entre diversos grupos indígenas (Tamoios, Tupinambás e Temiminós) quando da invasão portuguesa, e o que a ilha poderia guardar, como testemunha deste período colonial. 

        Organizei assim meus dias de trabalho entre leituras, anotações e pequenas derivas pela ilha, acompanhada dos ilhéus e de alguns colegas de residência, dispostos a encarar comigo esse jogo de fabulação a partir de objetos encontrados. A busca em si já acontece sempre carregada de sentidos projetados, e os significados adquiridos por cada elemento da coleção vão sendo alterados em narrativas inventadas e confrontos entre versões possíveis para as supostas origens de cada objeto encontrado.

          Ao término das derivas, reuni uma coleção onde os objetos fabricados se mostraram menos interessantes do que os objetos naturais - ao menos na rede de narrativas que começamos a tecer. Nesse diálogo através do tempo e do espaço, entre humanos e natureza, retomei pesquisas anteriores de trabalhos realizados com plantas, e me embrenhei por uma nova conjectura: 

o que as árvores da ilha poderiam me contar? Essas árvores certamente são netas, bisnetas ou tataranetas de árvores que podem ter testemunhado muita coisa… As avós da árvores contam histórias às suas netas, como a minha me conta?

E se começássemos a olhar para as plantas não só pelo oxigênio que produzem, mas também pelo que podem nos ensinar?

E se as plantas são capazes de aprender com a experiência e, portanto, possuem mecanismos de memorização, essa memória fica inscrita em seus corpos? 

Em seus fósseis?

             Foi assim que separei as flores secas de algumas palmeiras. Venho colecionando flores de palmeiras há algum tempo, não apenas em Paquetá, mas na Bahia, em São Paulo, e onde mais estiver e me depare com uma.

           A ideia é aproveitar estas flores secas para criar dispositivos comunicacionais, como rádios experimentais para criar um canal que liga passado e futuro.

 

EN

When I arrived in Paquetá I didn't know exactly what I was about to find. I haven't been to the island since my son was a kid, so it's been a good 15 years. I tried not to idealize, starting from the idea that the island itself would tell me which way to go.
I decided to work on two lines of investigation:
On the one hand, collecting traces and signs from natural or manufactured objects that appeared in my way, and that could become my allies in a possible creation on this territory - physical and symbolic.
On the other hand, in the Casa das Artes library I found some publications about the Island, its legends, its official history and the memories of travelers from different times. I was particularly interested in the theme of wars between different indigenous groups (Tamoios, Tupinambás and Temiminós) during the Portuguese invasion, and what the island could still show, as a witness of this colonial period.

So I organized my work days among readings, notes and dérives around the island, accompanied by the islanders and some residency colleagues, in a fabulatory game with found objects. The search itself is always charged with projected meanings, and these meanings and narratives point to possible versions for the supposed origins of each object found.

At the end of these processes I put together a small collection where the manufactured objects proved to be less interesting than thee natural ones - at least in the set of narratives that we started to weave. In this dialogue through time and space, between humans and nature, I resumed previous research of mine carried out with plants, and got into a new conjecture: what could the island's trees tell me? These trees are certainly granddaughters, great-grandchildren or great-great-grandchildren of trees who may have witnessed a great deal ... The grandmothers of the trees tell stories to their granddaughters, as mine tells me?
What if we started looking at plants not only for the oxygen they produce, but also for what they can teach us? And if plants are able to learn from experience and therefore have memory mechanisms, would this memory be inscribed in their bodies ? In their fossils?
That's how I separated a couple of dried flowers from some palm trees. I've been collecting palm flowers for some time, not only in Paquetá, but in Bahia, in São Paulo, and wherever I am and I come across one.
My idea is to associate with the dried flowers to create communicational devices, like experimental radios to channel new languages.

Como ativar dispositivos vibráteis em nossos corpos para cuidar do que ainda nos resta?

Marcela Cavallini

Essa pergunta moveu o encontro com a Ilha. Essa pergunta move o instante em que aqui relato.

             A maneira de ser lançada através dessa questão na segunda residência artística em Paquetá foi na proposição de ações-rituais que culminariam na dança butô Apocalipxon. Fazendo uma metáfora das quatro direções de uma circularidade temporal, ou dos 4 movimentos vindos dos elementos tão próximas à cartografia de uma ilha, percorri algumas etapas de mobilização dessa experiência junto ao território, desde pesquisa bibliográfica do acervo de Paquetá, à conversa/encontro com moradores e a apresentação ritual da performance.

            A escolha pela proposta artística seria emergir um pouco da poeira que se fez (in)visível e sensível nesse site: o peso da historicidade colonial na influência do ambiente e no discurso de vida dos moradores que se relaciona com os problemas que afetam sua própria moeda turística: a presença do lixo e a poluição das águas. A dupla camada entre a reprodução do tempo, o lixo e poluição das águas se interpenetraram mostrando que são mais que imagens de uma paisagem contraditória fruto de um capitalismo em pleno giro de produtividade alucinante. O lixo e o esgoto que vem do Rio pelas marés, o lixo que é recolhido pelo bairro e embarca para o Rio para um suposto tratamento que não existe, faz perguntar quem são os corpos lixos que povoam certo imaginário abjeto e apocalíptico e como estão emaranhados às marcas de um antropoceno fantasmático de usurpação de vidas e de destruição ambiental, desde o projeto necrocolonial.

            O pátio da Comlurb e seu entorno apresentaram-se, então, como uma paisagem que atravessava tais questões. Proponho que a intervenção aconteça lá em parceria com a direção local. Tive o apoio dos garis, entre eles, seu Hélio, que apresentou o terreno e me informou sobre os fluxos do lixo. Também estiveram juntos no dia da performance, guardando aquele espaço para que a dança acontecesse.  

            Em colaboração com os artistas Emmanuel Barbosa e Daniel Puig, a sonoridade aconteceu somando-se ao espaço de criação junto àquela paisagem. Utilizando a técnica da improvisação e instrumentos percussivos, a composição em tempo real afinada à escuta do corpo que dança e a paisagem, fizeram desse encontro um espaço de percepção mais afinado às camadas harmônicas flutuantes do mar, que eram entremeadas por momentos de crise e quedas de volume e altura musical.

EN

How do we activate devices that vibrate our bodies to care for what we have left?

That question moved the encounter with the Island. That question moves the instant I report here.

 The way to be launched through this question in the second artist residency in Paquetá was in the proposition of ritual actions that would culminate in the Apocalipxon butô dance. Making a metaphor of the four directions of a temporal circularity, or of the four movements coming from the elements so close to the cartography of an island, I went through some stages of mobilization of this experience in the territory, from the bibliographical research of Paquetá's collection, to the conversation/encounter with residents and the ritual presentation of the performance.

The choice for the artistic proposal would be to emerge a little from the dust that was made (in)visible and sensitive in this site: the weight of colonial historicity in the influence of the environment and in the discourse of life of the residents that relates to the problems that affect their own tourist currency: the presence of garbage and water pollution. The double layer between the reproduction of time, garbage and water pollution have interpenetrated showing that they are more than images of a contradictory landscape fruit of a capitalism in full swing of hallucinating productivity. The garbage and sewage that comes from Rio by the tides, the garbage that is collected by the neighborhood and embarks to Rio for a supposed treatment that doesn't exist, makes one wonder who are the garbage bodies that populate a certain abject and apocalyptic imaginary and how they are entangled in the marks of a phantasmatic anthropocene of usurpation of lives and environmental destruction, since the colonial necropolitical project.

The Comlurb courtyard and its surroundings then presented themselves as a landscape that crossed such issues. I propose that the intervention take place there in partnership with the local management. I had the support of the dustmen, among them his Hélio, who presented the land and informed me about the garbage flows. They were also together on the day of the performance, saving that space for the dance to happen.  

In collaboration with artists Emmanuel Barbosa and Daniel Puig, the sound happened adding to the creation space next to that landscape. Using the technique of improvisation and percussion instruments, the composition in real time tuned to the listening of the dancing body and the landscape, made this meeting a space of perception more tuned to the floating harmonic layers of the sea, which were interspersed by moments of crisis and falls of volume and musical height.

Um Outro Lugar

Mari Moura

         A ação performática Outro Lugar, é uma das ações realizada pela performer Mari Moura, como ministra dos territórios sensíveis. A ação consistiu na presença e no deslocamento da  Ministra pelas ruas da ilha de Paquetá, conversando com os moradores e transeuntes sobre o que eles querem para a constituição de um outro lugar para viver. Com bloco de notas em mão, a Ministra, anotou as pistas deixadas para a constituição deste “Outro Lugar”, todo o deslocamento foi transmitido ao vivo via Instagram, ampliando assim, via telemática, a constituição do sensível e a ampliação do território.

         Com a comunidade da ilha, estabeleceu seu espaço de luta diária para constituir o sensível ao conviver com os artistas residentes do projeto territórios sensíveis e com os moradores desta histórica ilha banhada pelas águas da Baía de Guanabara

EN

The performative action “Another Place” was one of the actions realized by the performer Mari Moura as a Sensitive Territories’ Minister. The action consisted of the presence and the displacement of the Minister into the streets of Paquetá Island, talking with the residents and passers-by about the personal desire to constitute another place to live. With her notebook in hands, she took note of the traces left to constitute this Another Place. Her whole displacement was transmitted amplifying the notion of territory and the sense of it.

With the community of this historic island bathed by the waters of Guanabara Bay, She created her diary space of fighting to constitute the sensitive with the residents and the Sensitive Territories’artists.