BAÍA DE GUANABARA | GUANABARA BAY

            Territórios Sensiveis| Baía de Guanabara é um projeto de pesquisa e criação em artes,  baseado em uma prática colaborativa e em ações performativas realizadas entre artistas, comunidades locais e cientistas. O projeto tem como objetivo desenvolver estratégias, junto com comunidades locais, para a gestão do lixo doméstico e, consequente,  a poluição das àguas da Baía de Guanabara, com foco no lixo flutuante. O resultado e as obras artísticas serão compartilhadas com o público em uma exposição e um livro.

Este projeto está sendo realizado com financiamento do Prince Claus Fund for Cultural Development e Goethe Institut.
Participantes: Walmeri Ribeiro, Guto Nóbrega, Cesar Baio, Patricia Freire, Ruy Cesar Campos, Nathalie Fari, Marcela Cavallini, Sofia Mussolin, Patrícia Teles, Marinalva Moura, Alessandro Paiva, Paola Barreto e Daniel Puig.

 

EN

          Sensitive Territories| Guanabara Bay is an artistic research project that aims to develop strategies with community based waste management to discuss water pollution in the Guanabara Bay área, Rio de Janeiro, Brazil. This will be done through performative actions co-created by artistas, local communities and scientist, in two artistic residencies. The results and artistic productions will be publish in an art exhibition and  book publication.

This Project is being realized with financial support from Prince Claus Fund for Cultural Development and Goethe Institut.
Participants: Walmeri Ribeiro, Guto Nóbrega, Cesar Baio, Patricia Freire, Ruy Cesar Campos, Nathalie Fari, Marcela Cavallini, Sofia Mussolin, Patrícia Teles, Marinalva Moura, Alessandro Paiva, Paola Barreto e Daneil Puig.

 

Mapas Performativos | Primeira Residência - Maio | 2019

           Com o objetivo de realizar um mapeamento performativo, ou seja, um mapeamento realizado com nossos corpos em movimento imbricado em territórios específicos, habitamos durante dez dias diferentes pontos da baía de Guanabara. Neste primeira etapa do projeto, tecemos diálogos com as comunidades locais, com autores, artistas e, sobretudo, vimos emergir questões nunca antes imaginadas por nós.

          Percorrer a Baía de Guanabara, em toda a sua extensão, num barco, com pescadores locais, nos apresentou a dimensão das questões que, literalmente, estão no nível mais profundo dessas águas. Ao habitar algumas partes que a compõem - Ilha de Paquetá, Colônia Z-10,  Ilha do Governador, Praias de Niterói - experienciamos a força das águas, mudanças de hábitos, descaso, cuidado pela comunidade local, sonhos, desesperança, e muita poluição.

            Símbolo Nacional e  patrimônio da humanidade| ONU 2012, na Baía são despejados 18 mil litros de esgoto doméstico não tratados por segundo.;90 toneladas diárias de lixo flutuante; Entre dutos de petróleo e munição da marinha e exército, um cinturão explosivo; Rota de tráfico de drogas e armas; Terra dos novos piratas:  a Milícia; Currais de pesca; Mangues devastados; Petróleo; Barcos e Barcas; Plataformas de petróleo; Manchas de óleo constante; Cheiro forte; Fedor; Ilhas abandonadas.

Mas também pudemos experienciar e conviver com um sopro de vida. Correntezas.  Águas sendo limpas pelas correntezas marítimas; Tartarugas.; Peixes; Golfinhos; Pescadores; Vida e história  de pessoas que persistem e resistem, habitando este território chamado Baía de Guanabara.

Por: 
WALMERI RIBEIRO.

Performative Mapping | First Residence - May | 2019
EN
   
    
         With the goal to realize a performative mapping, that is, a mapping carried out with our bodies moving in specific territories, we inhabited different points of Guanabara Bay for ten days. In this first action of the project, we were engaged in dialogues with local communities, authors, artists and, above all, we saw issues never before imagined by us.

         Cruising the entire length of Guanabara Bay in a boat with local fishermen has given us the dimension of the issues that are literally at the deepest level of these waters. By inhabiting some of its parts - Paquetá Island, Colony Z-10, Governor's Island, Niteroi Beaches - we have experienced the force of the waters, changes in habits, neglect, care to the local community for this territory, dreams, hopelessness, and a lot of pollution.

          National symbol and heritage of humanity | ONU 2012, in the Bay is dumped 18 thousand liters of untreated domestic sewage per second.; 90 tons daily of floating waste; Between oil pipelines and naval and army ammunition, an explosive belt; Drug and weapons trafficking route; Land of the new pirates: the Militia; Fishing pens; Devastated mangroves; Petroleum; Boats and barges; Oil platforms; Constant oil stains; Strong smell; Bad smell; Abandoned Islands

But we could also experience and live with a breath of life. Currents. Waters being cleaned by sea currents; Turtles; Fish; Dolphins; Fishermen; Life and history of people who persist and resist, inhabiting this territory called Guanabara Bay.

By: Walmeri Ribeiro

 

ARTISTAS CONVIDADOS|Invited Artists

PATRICIA TELES

 

         Por ser carioca, nascida e criada no Rio de Janeiro, a Baía de Guanabara sempre habitou meu imaginário, desde palco das invasões europeias até tornar-se cartão postal da Zona Sul carioca. Contudo, minha relação é distanciada, de modo geral a vejo quando estou a bordo de um dos inúmeros aviões que a atravessam diariamente – de cima aprecio sua beleza decadente, sua grandeza monumental, de cima vejo as marcas do ´progresso´, as manchas de óleo dos navios que trazem contêineres do mundo todo, a imponente Ponte Rio-Niterói, o bondinho que sobe e desce diariamente abarrotado de gringos deslumbrados com o exotismo brasileiro. Portanto, a conhecia de cima e do ´meu lado da Baía´, por essa razão o convite da Profa. Walmeri transformou meu imaginário, desde o primeiro dia de residência quando vimos tartarugas nadando naquela água turva e fétida. Fiquei atônita, me surpreendi que pudesse existir vida ali, demorei a processar que aquelas cabecinhas que emergiam no espelho d´água não eram garrafas PET. 


EN

Being a Carioca, born and raised in Rio de Janeiro, the Guanabara Bay has always inhabited my imagination, as scene of european invasions until it became a postcard of the South Zone of Rio. However, my relationship is distant, I generally see it when I am aboard one of the countless planes that cross it daily - from above I appreciate its ´decadent beauty´, its monumental grandeur, from above I see the marks of 'progress', the oil of ships that carry containers from all over the world, the imposing Rio-Niterói Bridge, the cable car that goes up and down daily crowded with gringos dazzled by Brazilian exoticism. Therefore, I knew it from above and from 'my side of the Bay', for this reason the invitation of the Professor Walmeri transformed my imagination, from the first day of residence when we saw turtles swimming in that muddy, fetid water. I was astonished, I was surprised that there could be life there, it took me a long time to process that little ones that emerged the water mirror were not PET bottles.

RUY CESAR CAMPOS

         Certos cientistas e também alguns artistas tem afirmado, nos últimos anos, que a água pode possuir memória, que a água se lembra. O tanto que as águas da Baia de Guanabara possuem de memória uma mente humana não poderia comportar. Fazer uma breve residência nesse território envolveu o esforço de lidar com a impossibilidade de alcançar essa memória passada e especular em torno das memórias que estamos produzindo para essas águas hoje. 

         Banhando mais de uma centena de ilhas, essas águas já sabem quais dessas ilhas fará desaparecer no futuro próximo, devido as mudanças climáticas? Sabem por quanto tempo se manterá como um “cinturão explosivo” repleta de dutos e tanques de armazenamento de combustível? Por quantos anos conviverá com os fósseis de nossa petropolítica?

         Paisagens lindas não se sobrepõem a desolação: a água da Baia de Guanabara está podre. As Olímpiadas parecem ter sido o momento de maior visibilidade para a possibilidade de solucionar os problemas ambientais dessas águas e agora vivemos a ressaca da falha. Tudo parece falhar no Rio de Janeiro: das infraestruturas de contenção de lixo ao próprio Estado, conforme sentimos que seu poder é apenas paralelo às forças das milícias e do tráfico. 

         No entremeio entre o desembocar de um esgoto e os barcos um tanto luxuosos a surpresa: uma comunidade de tartarugas nada no que se imagina inabitável. No entremeio do manguezal poluído e da presença ostensiva da indústria do petróleo, pessoas olham para ilhas abandonas imaginando utopias ecológicas. Da experiência da residência resta, enfim, a sensação de que apesar de que as memórias futuras pareçam desoladoras e catastróficas, que o presente pareça impossível de habitar, há humanos e animais que encontram caminhos para resistir.

EN

Certain scientists and also a few artists affirm that water has a memory, that water remembers. The amount of memory the waters from Guanabara Bay have a human mind can’t handle. To make a short residence in this territory related with the effort of dealing with the impossibility of reaching this past memory and speculating around the memories we are producing for these waters nowadays.

Touching more than a hundred islands, these waters already know which of these islands will disappear in a coming future due to climate change? They know for how long will last the “explosive belt” around and inside it, in ducts and oil storing achitectures? For how many years these waters will cohabit with the fossils of our petropolitics?

Beautiful landscapes do not overlay the desolation: Guanabara Bay water is rot. The Olympic Games seem to have been the moment of great visibility for it and of using this visibility to find solutions and having the finances to execute them, but now we live the hangover of this failure. Big promises were made, great projects were planned and received the resources for being executed, but they were never. 

In between the sewer and luxury boats a surprise: a community of turtles swims the inhabitable. In between mangrove and the ostensive presence of oil industry, a few people living in the Bay look at abandoned islands imagining projects of ecological utopia. From the residency experience lasts, finally, the feeling that despite future memories seem desolating and catastrophic and that the present seems impossible to inhabit, there are pulses of live yet resisting in this complex territory.

SOFIA MUSSOLIN
 

         Às vezes uma tartaruga põe a cabeça para fora da água em meio à poluição da Marina da Glória. Nós não sabíamos que ainda havia vida lá. O reconhecimento dos territórios ribeirinhos da Baía de Guanabara possibilitou um desenho através das sombras, em que, quando ele pretendia focar nas águas, sua figura era enfatizada, lembrando que nem todo território deve ser feito apenas de terra. Lembrei que nosso planeta e nossos corpos são muito mais amorfos do que formatados, com muito mais água do que qualquer outro elemento. Ambos são feitos de fluxo contínuo, e vemos apenas fixo. O sentido de dimensão, possibilitado pelo mapeamento da residência artística, entra no corpo com o sentimento de parte de um todo, do qual nos formamos sem uma ideia de conseqüência. Para passar pelo aterro do Flamengo, a Ilha de Paquetá, Colônia Z10, Niterói e Itaipu, onde suas respectivas comunidades inserem suas perspectivas em diversos “tempos atuais”, mas banhadas na mesma água, me fazem pensar até que ponto as pessoas estão conectadas com a realidade futura . Qual relação é criada? Esta primeira experiência foi o começo da quebra de uma visão estruturada do cartão postal do Rio de Janeiro, por práticas efetivas de experimentação em um conjunto de corpos de artistas-pesquisadores e destacou o surgimento de todas as vidas que estão perseverando em existir. Às vezes uma tartaruga põe a cabeça para fora da água na praia de Itaipu, e o vendedor grita: "Olha, uma tartaruga. Ou é uma lata?".

 

EN

Sometimes a turtle put its head out of the water amid the pollution of Marina da Glória. We did not know that there was still life there. The recognition of the territories bordering the Guanabara Bay made possible a drawing through the shadows, in which, when he intended to focus on the waters, its figure was emphasized, remembering that not all territory must be made of land only. I remembered that our Planet and our bodies are much more amorphous than formatted, with much more water than any other element. Both are made of continuous flow, and we see only fixed. The sense of dimension, made possible by the mapping of the artistic residence, enters the body with the feeling of part of a whole, of which we format without an idea of consequence. To pass by the Flamengo embankment, Paquetá Island, Colonia Z10, Niteroi and Itaipu, where their respective communities insert their perspectives in diverse "present-times", but bathed in the same water, makes me wonder how far people are connected with future reality. What relationship is created? This first experience was the beginning of the breaking of a structured view of the postcard of Rio de Janeiro, by effective practices of experimentation in a set of artists-researchers bodies and highlighted the emergence of all lives that are persevering in existing. Sometimes a turtle put its head out of the water on the beach of Itaipu, and the salesman screams: "Look, a turtle. Or is it a can?".

Pesquisa de Campo, passeio a barco pela Baia de Guanabara. field research, guanabara bay boat trip.

MARCELA CAVALLINI
 

         Conta uma amiga que outro dia vira um cachorro morto boiando na baía de Guanabara. Atordoada com esse acontecimento, pergunta a um dos funcionários da estação aquaviária das barcas Praça XV: como poderiam mover aquele corpo? Como dar um lugar digno a sua morte? 
         Espantosamente, recebe como resposta uma negativa. Segundo ele, ficaria difícil tirar todo lixo que aparece diariamente por aquelas bandas. Sem saber o que aconteceu ao cão; se morreu afogado durante sua travessia, se foi morto por alguém ou até se se jogou no mar por conta própria, o fato é que se tornou impossível um tratamento digno ao animal. Depois disso, minha amiga carregara tal imagem desoladora por horas. Assim que me conta, essa imagem também não se afasta de mim. Se desdobra em emoção enquanto vivo a angústia de também não ter resposta. Isso me conecta  à pesquisa, impregnada ainda estou dos dias de residência artística com o grupo de artistas-pesquisadores em que nos aproximamos desse ambiente cheio de tensões e complexidades. 
         Hoje sinto, retomando as conversas que tivemos com os moradores das localidades da colônia z10 e da ilha de Paquetá que a baía parece ser  um grande corpo ainda vivo que carrega a morte nas suas costas, não sabemos até onde vai aguentar. As potências frágeis dos corpos que vivem diretamente e indiretamente daquele meio vão deixando escapulir o que dele mesmo não se suporta esconder tão imerso está em jogos de poder e disputas. Aos poucos, emergindo das redes relacionais que vamos percorrendo e  nos enredando cada vez mais nelas, somos tomados por notícias que chegam de políticas de petróleo que exploram a região, de orçamentos paralisados para obras despoluição, de rotas de tráfico que unem um ponto ao outro de cidades circundadas pelo mar, formação de milícias e mercados paralelos, falta de políticas eficazes de tratamento de lixo e esgoto e a problemática dos aterros sanitários, e, principalmente, repercussões dessas relações em comunidades menos favorecidas e oportunizadas por políticas publicas. 
         Mas a baía ainda está viva e merece ser além, ensina os pescadores. Também nos chama e nos dá um presente: convida a senti-la mais de perto qual nossa real implicação com esse lugar. O encontro que se dá ao navegá-la ou até olhá-la sentada em meditação, reciclam nossa atenção para estarmos abertos: um tanto mais quanto menos capturados pelas fronteiras da consciência humana.  

 

EN

A friend tells him that the other day she saw a dead dog floating in the bay of Guanabara. Stunned by this, she asks one of the officials at the Praça XV waterway station: how could they move that body? How to give a place worthy of his death?
Amazingly, it receives a negative response. According to him, it would be difficult to take away all the garbage that appears daily by those bands. Not knowing what happened to the dog; if he died drowned during his crossing, if he was killed by someone or even if he threw himself into the sea on his own, the fact is that a dignified treatment of the animal became impossible. After that, my friend had been carrying such a devastating image for hours. As soon as you tell me, this image does not leave me either. It unfolds in emotion while I live the anguish of having no answer either. This connects me to the research, impregnated still I am of the days of artistic residence with the group of artists-researchers in which we approach this environment full of tensions and complexities.
Today I feel, taking up the conversations that we had with the residents of the localities of the colony z10 and the island of Paquetá, that the bay seems to be a great body still alive that carries the death in his back, we do not know as far as it will endure. The fragile powers of the bodies that live directly and indirectly from that environment are letting themselves slip away, which they can not support themselves to hide so immersed in power games and disputes. Gradually, emerging from the relational networks that we are going through and getting more and more entangled in them, we are taken by news that comes from petroleum policies that explore the region, from budgets paralyzed to pollution works, from traffic routes that link one point to the other of cities surrounded by the sea, formation of militias and parallel markets, lack of effective policies for the treatment of garbage and sewage, and the problem of landfills, and, mainly, repercussions of these relations in communities less favored and opportunized by public policies.
But the bay is still alive and deserves to be beyond, teaches the fishermen. It also calls us and gives us a gift: it invites us to feel it more closely as our real implication with this place. The encounter that occurs in navigating it or even looking at it sitting in meditation, recycle our attention to be open: somewhat more as less captured by the borders of human consciousness.

PATRICIA FREIRE

         A Baía de Guanabara está no meu horizonte diário. Olhar sobre ela mistura um sentimento de distanciamento a um pertencimento. Não me lembro de ter mergulhado em suas águas, não há esse desejo e nunca houve, talvez pela noção de que o uso daquelas águas não fosse nobre. O que me chama atenção é sua presença ao fundo de todo o caminho de quem transita em seu entorno, seja em Paquetá, na Colônia Z10, em Niterói ou na cidade do Rio de Janeiro. Não há como desconsiderar a agonia de suas águas escuras de um futuro duvidoso.

         Percebemos em cada desembarque em suas praias uma historia, suas ilhas com passados gloriosos. A paisagem da baía causa impacto em todos os ângulos possíveis, seja pela beleza exuberante de uma baía que é quase mar ou pela visibilidade do descaso cruel à natureza viva que ali ainda resiste à exploração humana. Nesse turbilhão de idéias e puro arrebatamento nos inserimos nessa paisagem, somos parte dessa natureza e há urgência de termos consciência dessa conexão.

EN

Guanabara Bay is on my daily horizon. Looking at it mixes a feeling of distance to a belonging. I do not remember diving into its Waters, there is no such desire and there never was, perhaps by the notion that the use of those waters was not noble. What strikes me is yours presence at the bottom of the whole path of those who travel in your surroundings, wheter in Paquetá, in Colônia Z10, in Niterói or in the city of Rio de Janeiro. There is no way to disregard the agony of its dark Waters of a dubious future.

We perceive on each landing on its beaches a story, its islands with glorious pasts. The landscape of the bay has an impact in every possible angle, either by the lush beauty of a bay that is almost a sea or by the visibility of the cruel neglect to the living nature that still resists humam exploitation. In this whirlwind of ideas and pure rapture we enter this landscape, we are part of nature and there is urgency to have awareness of this connection.

GUTO NÓBREGA
 

         Lixos são containers vazios de energia consumida. São resíduos descartados, energias estagnadas, que não se transformam, não recuperam seu potencial inicial. Poderíamos pensar o lixo em termos de informação e entropia. Paradoxalmente o lixo é redundância mas também é informativo na medida do improvável, como o plástico dentro dos organismos vivos das águas, no bico das aves. É uma informação que incomoda e que nos ameaça com sua presença ausente. Não consumimos a natureza, mas sim seus subprodutos industrializados. Há que se voltar para a terra, para água, para o ar. O fogo nos cura, extrai nosso males. Fumaças sobem ao vento. A água nos lava e o sal nos limpa. Recuperamos nossas energias. A terra nos aterra para nos conectar com as estrelas, com o cosmos, na medida que criamos raízes, como as plantas. Comer as plantas. Resgatar uma harmonia sem perdas, apenas mantendo o fluxo sutil da vida que passa por nós. Há que se desnudar para retornar à natureza,
sem danos, ou perdas, sem lixo. Onde não estaremos mais separados de nada.

EN

Trashes are empty containers of consumed energy. They are discarded waste, stagnant energies that do not transform, do not recover their initial potential. We could think of trash in terms of information and entropy. Paradoxically, waste is redundant, but it is also informative as far as unlikely, such as plastic inside living water organisms, in birds' beaks. It is a piece of disturbing information that threatens us with its absent presence. We do not consume nature, but its industrialised byproducts. One has to turn to earth, to water, to air. Fire heals us, extracts our evils. Smokes rise in the wind. Water washes us and salt cleanses us. Thus we recover our energies. Earth lands us to connect with the stars, the cosmos as we take root, like plants. Eating plants. Redeem a lossless harmony, just keeping the subtle flow of life through us. You have to bare yourself to return to nature without damage or loss, without trash. Where we won't be apart from anything anymore.

ALESSANDRO PAIVA
 

         Por 10 dias percorremos estes territórios numa experiência de mergulho sem volta. A Baia de Guanabara é um retrato pontual do nosso descaso e negligência com este mundo e neste primeiro contato, o que prescreve em meu corpo é uma sensação de agonia e sufocamento. O planeta já não mais suporta a lógica da qual o submetemos, pela ordem do progresso humano: estamos em colapso. Durante está primeira etapa, o mapeamento de atividades históricas, sociais, políticas e econômicas condicionada à Baia, reflete um panorama universal de questões à serem modificadas iminentemente no nosso cotidiano, alterações profundas que precisam ser atualizadas - pauta mais que debatida ao redor do globo, tal qual a relevância de qualquer atitude que vá de contra este cenário.
         Compor uma equipe de trabalho, que atua para além da questão científica - em nosso caso artista- projeta em meu corpo uma última esperança: no sustentar da arte - agir no âmago! Alterar a engrenagem e hackear a lógica dominante, para que assim nas micro relações,  construir soluções possíveis que influenciem as macro... 

EN

For 10 days we traveled these territories in a diving experience without return. Guanabara Bay is a punctual portrayal of our indifference and neglect of this world. At this first contact, my body smells like agony and choking. The planet don't more acept the logic we creat, in the order of human progress: we collapsed.   During this first stage the activities conditional on the Bay, such as: the mapping of historical, social, political and economic activities reflects a universal panorama of issues to be imminently modified in our lives. Something needs to be done based on deep changes and atualizations - This is a hotly debated subject around the world, as is the importance of any attitude that goes against this scenario...

Joining a work team, focused beyond the scientific issue - being an artist - gives to my body one last hope: supported by art - act from the core. Change the gear and hack the dominant logic, so that in micro relationships, build possible solutions that influence macro relationships!

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